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    Arte e Loucura

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    Alexandre Garcia da Silva

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    Arte e Loucura

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Dom Set 02, 2012 4:06 am

    William Blake(1757 - 1827), poeta e pintor visionário, artista único que repudiou todos os dogmas e, sozinho, com seu misticismo particular, buscou a verdade, afirmou numa de suas obras mais conhecidas ("O Matrimônio do Céu Com O Inferno") que o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.
    Experiências intensas sempre são enriquecedoras. Mesmo as mais terríveis (principalmente estas, aliás). Mas o excesso, tanto de sexo quanto de drogas (ou quaisquer outros itens perigosos), por si só, não causa a iluminação. Se assim o fosse, quantos visionários não encontraríamos na cracolândia, por exemplo? Eu não passei por experiência semelhante mas, anos sofrendo com depressão, levaram-me a desconfiar que o céu e o inferno estão, na verdade, no íntimo de todos nós. Mas só alguns se aventuram em realizar um périplo íntimo até o ponto onde os dois, num inaceitável e incompreensível casamento, abolem todas as nossas certezas confortantes e castradoras. O que instiga tal périplo? As drogas? O sexo desenfreado? Talvez, às vezes, seja o contrário. Talvez a maioria não tenha coragem de se atrever a tal viagem, mude de ideia no último instante e acabe preferindo o envenamento de um estímulo que, na verdade, embota. Thomas de Quincey e Jean Cocteau tiveram experiências com ópio, mas Santa Tereza D'Ávila, San Juan de la Cruz e o próprio Blake não precisaram de drogas para tanto, por exemplo. Mas o importante é que nenhum deles desistiu do tal périplo íntimo. Mas eu não desprezo quem desiste da viagem. Afinal, ela não promete a felicidade a quem se dispõe a realizá-la. Creio que o excesso a que Blake alude, na realidade, é o excesso de si mesmo.

    Alexandre Garcia da Silva

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    Re: Arte e Loucura

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Ter Set 04, 2012 3:40 am

    Ah, quem seria capaz de desvendar esse misterioso elo entre arte e loucura?
    Eu não sei se a história é real ou apócrifa. Desconfio de sua veracidade. Mas, ainda que falsa, ela contém uma certa verdade.
    O escritor irlandês James Joyce (1882-1941), um dos pilares da Literatura Ocidental do século XX, era um profundo conhecedor de vários idiomas. Levou as experiências linguísticas no campo da literatura às últimas consequências. O seu romance mais radical, "Finneganss Wake", é considerado um dos textos mais complexos de todos os tempos. Para construi-lo, ele chegou a misturar dezenas de idiomas (inclusive o nosso português). Sua tradução é quase impossível. Os poetas Augusto e Haroldo de Campos lançaram no Brasil, pela Editora Perspectiva, a tradução de alguns trechos da obra, os quais eu reproduzo abaixo:
    "riocorrente, depois de Eva e Adão, do desvio da praia à dobra da baía,devolve-nos por um commodius vicus de recirculação devolta a Howth Castle Ecercanias."
    "Heis um caminho esquisito! Lembra, de rasto, a deslavada negravura que bostumávamos manchar no borramuro de sua pensão instinta. Crostumavam?"
    "Agora abre, pet, teus lábios, pepette, como eu usava meus dulces astrolábios que Dan Holohan de humorresca meamória ensinuou-me após a dança dos flanelos, com a prova de amor, lá em Smock Alley, a primeira noite ele olorava a pólvora e eu colorri sob meu leque, 'pipetta mia', quando me a prendeste a solver o línguo."
    Entenderam alguma coisa? Não? Eu também, não. Não tenham vergonha em admitir. Talvez apenas duas criaturas em todo o Universo conseguiram compreender esse livro: o próprio Joyce. E Deus.
    Nunca achei que talento fosse hereditário. Loucura, talvez... James Joyce tinha uma filha que sofria de esquizofrenia. Em meio ao sofrimento, ele se deu conta de que a pobre garota escrevia textos tão incompreensíveis quanto os seus. Com as mesmas misturas indecifráveis de palavras.
    Intrigado, procurou o famoso psiquiatra e psicanalista, Carl Gustav Jung. Expôs-lhe a situação, mostrou os estranhos escritos da filha, e indagou a Jung como tal coisa podia acontecer? Pai e filha escrevem praticamente da mesma maneira. Por que ela não é normal como ele? Por que o que num é experimento literário na outra é doença?
    A resposta de Jung?
    "Nas mesmas águas onde você nada, ela afunda."
    É o tal do périplo íntimo. Alguns indivíduos são irresistivelmente atraídos pelo seu canto de sereia. E rumam. Aos confins infernais da alma humana. Uns conseguem retornar. Afetados para sempre, mas retornam. E dessa experiência nos legam seus romances, poemas, músicas, pinturas, HQs...
    Outros não conseguem. Ficam. São esmagados por tal experiência.
    Aqueles são artistas. Estes, os loucos.

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