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    Crueldade com sofisticação

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    Alexandre Garcia da Silva

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    Crueldade com sofisticação

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Dom Ago 19, 2012 5:18 pm

    Os gregos antigos nos ensinaram muita coisa. Deixou-nos um patrimônio cultural de valor inestimável.
    Mas também nos ensinou a cometer muitos equívocos.
    Um deles foi o de associar maldade à falta de conhecimento. À ignorância. Um indivíduo que não fosse iniciado na filosofia, que não buscasse a verdade por trás das coisas, não teria a possibilidade de reconhecer os valores que devem pautar a vida de todos. Barbárie está, necessária e inevitavelmente, ligada a povos culturamente inferiores.
    A premissa acima até soa bonita. Mas, por trás dessa visão que une ética e pedagogia no mesmo norte, há uma visão puramente preconceituosa. Racista, até. Os gregos consideravam-se, ao contrário dos demais povos, a realização máxima dessa obra chamada ser humano.
    Pois bem. Esses rodeios todos para quê? Para comentar uma notícia vista na internet? De que o Estado da Califórnia proibiu a venda de "foie gras"? Uma famosa iguaria francesa?
    Pois é. Ao se falar em iguaria e em franceses vem à nossa mente, justificadamente, todo um mundo de sofisticação que é o mundo da alta gastronomia. Um mundo acessível a poucos mortais, mortais metidos em roupas elegantes, grandes conhecedores dos vinhos mais caros e das cidades mais importantes europeias. Mortais que, com seus ademanes, ostentam seu domínio doutros vernáculos, em especial daqueles em que brilharam poetas do Velho Mundo. Seu mundo é ornado com as sedas mais cintilantes e com cristais mais frágeis que seus sonhos dourados, embalados pelas notas das composições seculares de gênios intraduzíveis à simploriedade dos reles que só conseguem espiar tal mundo nas fotografias de revistas de fofoca.
    E o que alimenta esse Olimpo? Dentre outras crueldades, a tradicional técnica de se enfiar um tubo pela goela de um pato ou de um ganso para forçá-lo a se alimentar várias vezes ao dia até seu fígado ficar suficientemente inchado para agradar ao exigente paladar dos mortais elegantes. Aliás, "foie gras" significa simplesmente "fígado inchado". Mas como fica bonito em francês, não é verdade? Parodiando um certo comercial de refrigerante, sede não é nada. Imagem é tudo.
    Agora, os franceses, em retaliação, pensam em boicotar o vinho californiano. Que, há um bom tempo, diga-se de passagem, vem conquistando um certo espaço, para incômodo dos produtores de vinhos franceses. Na verdade, nessa história toda, ninguém está preocupado com o sofrimento das pobres aves. Tudo não passa duma briguinha comercial.
    Mas, voltando ao tema, o "foie gras" é só um exemplo. A alta gastronomia conta com outros itens sofisticados feitos a partir do sofrimento de animais. Agora, não é a França uma nação culta? E o mundo da alta gastronomia, por acaso, é gozado por pessoas de baixa instrução? Isso é só uma das provas do quão equivocados estavam os gregos. E do quão equivocados estamos ao herdamos tal equívoco. Caráter, bondade, generosidade, ética, nada tem a ver com formação cultural. Tal equívoco redunda em outras bobagens, tais como a de achar que investimento em mais educação resulta, necessariamente, em menos criminalidade. Os EUA têm a maior população carcerária do mundo. E a qualidade de ensino lá é muito superior à do Brasil, por exemplo. E, para completar, qual nação criou o nazismo? Não foi justamente aquela que nos deu Goethe, Kant, Nietzsche, Rilke, Thomas Mann, Karl Marx, Max Weber, só para ficarmos em alguns?
    Para finalizar: um dos maiores (para mim, o maior) vilões do Cinema, Hannibal Lecter, é um canibal que aprecia música clássica e cita de cabeça autores clássicos, como o romano Cícero. Embora fictício, ele (infelizmente) dá a exata medida do humano (até porque, descontados os exageros do filme, já houve pessoas reais que bem encarnam o tal personagem, como o nosso famigerado Chico Picadinho, esquartejador e, na cadeia, leitor de Kafka). Pois é, sr. Platão, nesse ponto o sr. estava completamente equivocado.

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