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    Deus, um artista?

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    Alexandre Garcia da Silva

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    Deus, um artista?

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Qua Ago 01, 2012 3:31 am

    É comum (e eu mesmo durante muito tempo acreditei nisso) a comparação entre Deus e o artista. Afinal, o trabalho de ambos envolve essa coisa mágica que é o criar. Além do mais, a natureza, em suas mais diversas manifestações, é fonte de inspiração para músicos, poetas, pintores, cineastas, desenhistas de HQs...
    Mas, haverá de fato tal semelhança entre Deus e o artista? Será mesmo Deus um artista completo, numa escala inalcançável e incompreensível para nós? E o artista uma espécie de deus menor?
    Eu ouso afirmar: NÃO!
    Ao contrário do que muitos pensam, ao contrário do que pensei por tanto tempo, eu creio que nada é mais distante das obras divinas do que a atuação de um artista.
    Como dito acima, a natureza é a grande musa do artista, não importa a linguagem em que ele se expresse. Mas as semelhanças terminam aí.
    O belo que o artista capta na natureza é diferente do belo que ele recria em seu trabalho. Nada numa composição de Mahler lembra o mais belo canto dum pássaro. E não digo que o talento de Mahler seja superior à capacidade da ave. Nem inferior. Apenas diferente.
    O belo na natureza cumpre funções determinadas, como por exemplo atrair a fêmea da mesma espécie para o acasalamento, ou o pássaro que irá espalhar o pólen da flor. Já o belo no quadro, na escultura, ou no movimento do dançarino existe por si só. É um fim, não um meio. Além do que, o artista, por mais realista que seja, não copia a natureza. Nem poderia. Ele não retrata a paisagem à sua frente, mas o modo como ele consegue captar essa paisagem, levando-se em conta todas as influências que ele sofreu e ainda sofre ao longo da sua vida. Afinal de contas é, talvez, a mais emotiva das criaturas. E flores, florestas, cachoeiras, nuvens não se emocionam. Ao menos, não como nós. Como o mais exímio pintor poderia, na superfície de uma tela bidimensional, retratar as árvores e as montanhas que o encantam, elementos que existem numa dimensão tridimensional regida por essa coisa chamada tempo? Não poderia. E nem precisaria. A grandeza da sua arte, entre outras coisas, está não em copiar, mas em interpretar aquilo que vê.

    Alexandre Garcia da Silva

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    Re: Deus, um artista?

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Qua Ago 01, 2012 3:35 am

    Há um segundo fator nesse processo: a mão do artista jamais é neutra. A realidade que nos cerca nunca entra num quadro, num filme ou num poema isenta de qualquer transformação. É impossível. A mão do artista, inevitavelmente, transforma tudo aquilo que toca. O exemplo mais evidente disso é que o artista produz beleza mesmo quando o tema é chocante. Uma cena de guerra é horrenda. Mas uma gravura de Goya tratando do mesmo tema, por mais forte, por mais crua, por mais torturante que seja, nos fascina.
    Isso é um sinal de fraqueza da arte? O artista é incapaz de nos trazer a verdade? Não. Eu não sei se há a Verdade, mas eu sei que, com seu trabalho, o artista pode revelar aspectos sempre novos da realidade, da vida.

    Alexandre Garcia da Silva

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    Re: Deus, um artista?

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Qua Ago 01, 2012 3:46 am

    Há, ainda, um terceiro fator, esse mais complicado.
    Sem romantismos, eu afirmo: o artista é um ser doente! Sua necessidade de criar é a demonstração do vazio em seu íntimo. Com sua obra, ele espera preencher esse vazio. Sua necessidade de criar é ditada por uma angústia da qual jamais se livrará.
    A doença do artista é a doença da alma.
    Na realidade a dor é a verdadeira musa do artista.
    Ou é casual, mera coincidência, que muitos artistas se viram em excessos de drogas, sexo? Que muitos tiveram relacionamentos conturbados com seus amores, amigos e familiares? Muitos morreram cedo, outros se mataram, ou terminaram loucos?
    Eu muitas vezes me pergunto se a arte é uma forma de doença!
    Não sei. O que sei é que o verdadeiro artista aceita tal condição.
    Entre o nada e a dor, ele escolhe a dor.
    Agora, se você concorda com o que foi dito acima, pergunte-se: se partimos do pressuposto de que Deus é um ser pefeito, você consegue vê-lo na mesma condição do artista?
    Em sendo perfeito, ele não pode se angustiar. Em sendo perfeito, ele se basta. Em sendo pefeito, não pode se abater por nada.
    Eu não sei, e nem tenho a pretensão de saber, o que levou Deus a criar. Mas me arrisco a dizer que não foi pelos mesmos motivos por que Van Gogh pintou seus girassois e Drummond escreveu seus poemas.
    Por isso, eu digo: não. Deus não é um artista.

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