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    O Valor do Carnal

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    Alexandre Garcia da Silva

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    O Valor do Carnal

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Seg Jul 23, 2012 3:59 am

    Não conheço profundamente o assunto, mas já vi alguns exemplos em que místicos, ao descreverem a experiência da união de suas almas com Deus, valeram-se de uma linguagem erótica. Sofisticada mas, sobretudo, erótica. Os poemas de São João da Cruz e o "Cântico dos Cânticos" provam isso.Um amigo meu, escritor, me contou que, ao tomar LSD, experimentou uma sensação que ele só sabia descrever como um intenso orgasmo. Ele estava numa área de mata, com uns amigos, onde havia uma cachoeira... sentado numa pedra, enquanto vivia tal gozo, ele sentia como se ele e a pedra fossem uma coisa só. Incrível, não? Na cultura oriental não houve essa depreciação do corpo, do carnal, ao contrário do que houve aqui. Tanto que lá uma vertente da ioga, o tantrismo, recorre justamente ao sexo como forma de se unir com o Absoluto.Aqui, no Ocidente, infelizmente, herdamos duas tradições culturais que, a despeito das suas importantes contribuições, foram grande responsáveis pelo menosprezo pela carne: a filosofia platônica e o Cristianismo!Mas eu me sinto vingado quando, numa das mais importantes obras sacras, está retratado, como experiência religiosa, o intenso orgasmo de uma mulher. É a escultura "Êxtase de Santa Teresa D'Ávila", de Bernini!Temos que deixar de hipocrisia. A carne é santa, sim!

    Alexandre Garcia da Silva

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    Re: O Valor do Carnal

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Seg Jul 23, 2012 4:17 am

    Por que toquei nesse assunto? Meses atrás, vi pela internet a notícia de que jovens de uma denominação evangélica (não me recordo qual delas) estavam optando por se casarem virgens com seus respectivos amores. Isso, para mim, não tem nada de mais. Cada um tem o direito de construir com a pessoa amada seu ideal de felicidade, sem se prender a modelos impostos.
    O problema era o que motivava tal escolha: a velha visão de que o sexo é imoral, sujo, pecaminoso etc. Não eram exatamente essas as palavras. Mas era esse o sentido. Caramba, em pleno século XXI!
    O que, exatamente, o Platonismo e o Cristianismo fizeram? Bem, para resumir (até porque não sou teólogo nem formado em filosofia): ambos concordam na ideia de que, além deste mundo, onde tudo está sujeito à ação do tempo, onde tudo e todos envelhecem e morrem, há um outro, que é o mundo verdadeiro. Tanto para platônicos quanto para cristãos, é verdadeiro aquilo que não morre. Que é eterno. Nesse sentido, nossos corpos são coisas ilusórias (já que um dia, por ação da Morte, retornam ao pó donde todos viemos) e, por isso, fonte de todo o sofrimento. O corpo é a prisão da alma, essa sim eterna, real, verdadeira, santa.
    Mas,tudo isso de que falo já não estaria ultrapassado? Não teríamos superado essas concepções medievais?
    Você tem certeza mesmo disso? Pode parecer que sim, já que hoje, em muitas pessoas, a religião não ocupa um espaço tão grande em suas vidas, se é que ocupa algum.
    Pois eu proponho que se faça uma observação. E para isso, me perdoem, mas vou ter que apelar para palavras de baixo nível. Aliás, já começamos por aí: geralmente usamos palavras horrorosas para nos referirmos ao ato sexual e aos nossos órgãos genitais. Mas não é só isso: já pararam para pensar que nós usamos as mesmas palavras tanto para se referir ao ato sexual quanto ao ato de se prejudicar alguém? Aqui vão os dois maiores exemplos da nossa língua: "foder" e "sacanagem". Será que não há, mesmo, alguma coisa de errado com a gente?
    Outro exemplo: reparem na quantidade de piadas cujo tema é o sexo! Há piadas para nossos outros comportamento considerados normais, como o ato de dormir ou de se alimentar, por exemplo? Não me ocorre nenhuma no momento mas, se tiver, deve ser uma minoria.
    Pois bem. Já li declarações de psicanalitas segundo as quais costumamos fazer piadas com as coisas que nos assustam. Criaturas monstruosas no imaginário dos povos, muitas vezes acabam uma configuração muito mais simpática. O gênio da lâmpada, originalmente, é um mito da cultura islâmica. Os chamados "djins" são demônios que em nada lembram aquela figura carismática dos desenhos animados da Disney. O humor é uma forma de nos apropriarmos daquilo que nos faz tremer, apaziguá-lo, tirar-lhe o poder sobre nós.
    Voltando ao exemplo das piadas: será que o sexo nos assusta tanto assim? Talvez não sejamos tão modernos quanto imaginemos.

    José Lúcio de Barros

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    Re: O Valor do Carnal

    Mensagem  José Lúcio de Barros em Qua Ago 01, 2012 12:16 am

    Caro colega de Piápolis, você é um grande observador.Também acho que não somos tão modernos quanto parecemos quando o assunto é sexo. A relação sexual só depois do casamento acarretou uma série de mulheres insatisfeitas porque não aprenderam a conhecer o próprio corpo. E o pior: algumas nem orgasmo tiveram em suas experiências e acabam achando que tudo é normal.E vão morrer sem um prazer intenso. Os homens, apressados e nada carinhosos, não se preocupam em estimular as mulheres e são candidatos à ejaculação precoce. Como diz o educador Rubem Alves, para o verdadeiro prazer é necessário gastar o tempo.

    Alexandre Garcia da Silva

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    Re: O Valor do Carnal

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Qua Ago 01, 2012 3:07 am

    Caro Lúcio, quanto tempo! Concordo plenamente com você. Hoje fala-se abertamente de sexo em programas de televisão, por exemplo. O que até parece um avanço. Mas eu acho que ainda nos falta muito.
    Nós herdamos duas tradições culturais que têm muito peso na nossa forma de pensar e que, para mim, são as grande responsáveis por essa visão negativa do sexo, do corpo: o Cristianismo e o Platonismo.
    Como tudo ao nosso redor, a carne amadurece, envelhece e morre. Nada permanece para sempre. Temos a mania de acreditar que verdadeiro e importante é so aquilo que é eterno. Que não está sujeito à ação do tempo. O que está, é ilusório. Mas o que ninguém se dá conta é que só permanece aquilo que está morto!
    Muitos animais nos encantam com sua beleza. Incorformados, talvez, com o fato de que tal beleza um dia passará, o taxidermista empalha o corpo do animal depois que este morre. A sua beleza, de certa forma, é preservada, mas é a beleza dum corpo sem vida!
    Os antigos egípcios conseguiram, de certa forma, preservar o corpo de seus monarcas. Mas as múmias, mesmo as mais preservadas, não têm o calor, a voz, as emoções das pessoas que foram um dia!
    Por não aceitarmos essa máxima de que o tempo tudo devora, nos votamos religiosamente a uma suposta alma que nem podemos ter a certeza de que existe de fato. E, ainda que tenhamos todos uma alma imortal, poderá essa mesma alma desfrutar do olor duma rosa? Da tepidez carinhosa dum raio de sol? Da força de um bom vinho tinto? Do encanto dum quadro de Van Gogh?

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    Re: O Valor do Carnal

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