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    Na Estrada. Da loucura, da vida!

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    Alexandre Garcia da Silva

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    Na Estrada. Da loucura, da vida!

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Sex Jul 20, 2012 3:32 am

    Desde a primeira vez em que ouvi falar do projeto, não sei exatamente quantos anos se passaram. A espera foi longa. Até que finalmente, estava nos jornais: a data de estreia no Brasil do filme "Na Estrada", a tão aguardada adaptação do cineasta Walter Salles do clássico "On The Road", a obra clássica do movimento literário-existencial "Beat".
    Muitos leram essa obra naquela fase dourada e complicada em que nos despedimos da adolescência para entrarmos na maturidade. Cheios de ideias, dúvidas, sonhos, anseios. Com energia suficiente para mudar um mundo onde tudo permanece o mesmo.
    Comigo foi o contrário. Eu já tinha mais de 30. Ainda assim, foi num momento crucial da minha vida. O ano de 2009 que foi um divisor de águas em minha vida. Em outro tópico eu conto a história.
    Pois bem. O que importa falar agora é que em tal ano eu decidi tomar meu destino nas minhas próprias mãos. Lutar pelos meus próprios sonhos e errar meus próprios erros (até então eu fracassava errando erros alheios). Não sei se essa história do Universo conspirar a seu favor é verdadeira (muitas vezes acho que é o oposto). O que sei é que, comigo, quando passei a buscar certas coisas, outras vinham até mim. Dessa forma, com um estrondo sutil, "On The Road" e o movimento "Beat" vieram até mim. Num determinado período, eu só lia o que a "santíssima trindade beatnick", ou seja, Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs, haviam escrito. Além de "On The Road" vieram "Os Vagabundos Iluminados", "Uivo", "Almoço Nu", "Cartas do Iagê"...
    Por estar maduro ao conhecer os "Beats", pude vê-los em sua plena humanidade. Não os coloquei num pedestal. Não os santifiquei. Vi seus erros, seus fracassos. E invejei: "Que erros, que fracassos maravilhosos!" Muitas vezes, o sucesso nos torna estúpidos e o fracasso nos ilumina.

    Alexandre Garcia da Silva

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    Re: Na Estrada. Da loucura, da vida!

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Sex Jul 20, 2012 3:39 am

    Que fique claro que, dentre tantos movimentos literários e artísticos, o caso dos "Beats" extrapola os limites estéticos. Foi um movimento, sobretudo, existencial. Sem uma teoria pré-concebida, construída aos trancos e barrancos, alimentada por uma intuição selvagem e por uma ousadia que, infelizmente, perdemos quando envelhecemos (ou melhor, envelhecemos a partir do momento em que a perdemos). Os excessos de sexo, drogas e jazz bebop (anos 40, o rock ainda não existia; antes das guitarras, eram os saxs e trompetes que enlouqueciam a juventude) não eram só puro hedonismo, uma busca de prazer escapista. Tinham um sentido. Romper barreiras, transcender uma existência mecanizada orientada por um pragmatismo fordista que só enxerga o sucesso materialista que nos torna mais e mais vazios.
    Todos os movimentos que contestam e contestaram essa existência mecanizada (o tal do "american way of life" que importamos junto com outras porcarias ianques), desde os "hippies" até os recentes eventos de ocupação de "Wall Street", passando pelos mochileiros, foram de alguma forma antecedidos pelos "Beat" lá nos anos 40 nas terrinhas do Tio Sam.

    Alexandre Garcia da Silva

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    Re: Na Estrada. Da loucura, da vida!

    Mensagem  Alexandre Garcia da Silva em Sex Jul 20, 2012 3:50 am

    Agora, é que vem o problema com o filme de Walter Salles. Ele se propôs a adaptar o livro (que, em cerca de 50 anos, jamais tinha sido levado às telas). E o fez. Com competência e dignidade. Ele também leu o clássico de Kerouac e vê-se na tela o amor pelo livro.
    Ocorre que, ao se colocar "On The Road" como a bíblia do movimento "Beat", cria-se um problema. Quando ele foi escrito, a loucura toda ainda estava no seu nascimento. E quem for ver o filme, creio, sem nunca ter lido nem pesquisado nada desses caras, não vai ter uma boa ideia da dimensão do que aquilo representou. Claro que Walter Salles foi maduro e corajoso em não dourar a pílula. Mostrou os excessos como eles, de fato, devem ter ocorrido. Coisa que, embora de certa forma nos fascinem, não devem nos inspirar. Ainda assim, como disse acima, esses mesmos excesso só são uma parte da história toda. Eles foram além disso. Com tudo de bom e de ruim que isso implica.
    O certo seria, ao invés de uma adaptação de uma obra, fazer um filme contando a história do movimento como um todo, focando-se nos "personagens" principais dessa história. Mas, como eu disse: o livro jamais tinha sido adaptado, muitos projetos de outros diretores deram em nada; a expectativa e a cobrança eram grandes; além do quê, "On The Road" é a "bíblia" do movimento "beat". Todos esses fatores criaram um peso do qual o nosso Walter Salles jamais poderia se livrar.
    E, se vocês querem a minha opinião: "On The Road" é, sim, um livro maravilhoso. Mas não é o melhor, nem o mais representativo do movimento. Claro, não sou nenhum especialista na matéria mas, para mim, "Vagabundos Iluminados" revela melhor quem foi essa estranha e maravilhosa tribo.
    Por isso, aqui fica minha dica: vá ver, sim, o filme. Deixe-se levar pelo clima de liberdade de que ele abusa. E leia as obras. Faça pesquisas sobre os caras. Eu afirmo: há todo um universo incrível e único à sua espera.

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    Re: Na Estrada. Da loucura, da vida!

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