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    A impossibilidade de ser feliz

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    José Lúcio de Barros

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    Data de inscrição : 17/06/2012

    A impossibilidade de ser feliz

    Mensagem  José Lúcio de Barros em Dom Jun 17, 2012 11:52 pm

    Há muito tempo estabeleci a diferença entre ser feliz e estar feliz. Posso estar feliz por vários motivos. Por rever você, ajudar um amigo, fazer uma viagem maravilhosa, participar da formatura do meu filho, ver um belo filme, salvar a vida de um animal, auxiliar e proteger uma pessoa. Já ser feliz compreende uma visão global do mundo e já não depende unicamente da minha pessoa. Tem a ver com a organização de tudo que está ao nosso redor. Como posso ser feliz sabendo da fome mundial, da existência de crianças abandonadas, da morte diária de animais. Ou ainda sabendo da existência de idosos desamparados, da falta de ética, de maldades de todos os tipos. Alguém poderá dizer que tudo isso faz parte da vida e que é preciso agir para melhorar tudo. Mas daí já entramos no terreno do estar feliz e não do ser feliz. Estar feliz depende de mim, ser feliz é uma impossibilidade constatada.
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    Thiago Silva
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    Re: A impossibilidade de ser feliz

    Mensagem  Thiago Silva em Seg Jun 18, 2012 1:33 pm

    Olá José Lucio! Seja bem-vindo ao forum do Projeto Chroma!! Smile

    Este assunto que você levantou é realmente relevante dentro do contexto atual em que se insere a nossa sociedade. Me fez lembrar este ótimo artigo do Professor Leonardo Boff:

    O individualismo tem ainda futuro?

    Há hoje nos EUA uma crise mais profunda do que aquela econômicofinanceira. É a crise do estilo de sociedade que foi montada desde sua constituição pelos “pais fundadores”. Ela é profundamente individualista, derivação direta do tipo de capitalismo que ai foi implantado. A exaltação do individualismo ganhou a forma de um credo num monumento diante do majestoso Rockfeller Center em Nova York, no qual se pode ler o ato de fé de John D. Rockfeller Jr:”Eu creio no supremo valor do indivíduo e no seu direito à vida, à liberdade e à persecução da felicidade”.

    Em finas análises no seu clássico livro “A democracia na América”(1835) o magistrado francês Charles de Tocqueville (1805-1859) apontou o individualismo como a marca registrada da nova sociedade nascente.

    Ele sempre foi triunfante, mas teve que aceitar limites devido à conquista dos direitos sociais dos trabalhadores e especialmente com surgimento do socialismo que contrapunha outro credo, o dos valores sociais. Mas com a derrocada do socialismo estatal, o individualismo voltou a ganhar livre curso sob o presidente Reagan a ponto de se impor em todo o mundo na forma do neoliberalismo político. Contra Barack Obama que tenta um projeto com claras conotações sociais como a saúde para todos os estadounidenses e as medidas coletivas para limitar a emissão de gases de efeito estufa, o individualismo volta a ser reproposto com furor. Acusam-no de socialista e de comunista e até, num Facebook da internet, não se exclui seu eventual assassinato caso venha a cortar os planos individuais de saúde. E note-se que seu plano de saúde nem é tão radical assim, pois, tributário ainda do individualismo tradicional, exclui dele todos os milhões de imigrantes.

    A palavra “nós” é uma das mais desprestigiadas da sociedade norteamericana. Denuncia-o o respeitado colunista do New York Times, Thomas L. Friedman num artigo recente:”Nossos lideres, até o presidente, não conseguem pronunciar a palavra ‘nós’ sem vontade de rir. Não há mais ‘nós’ na política norteamericana numa época em que ‘nós’ temos enormes problemas – a recessão, o sistema de saúde, as mudanças climáticas e guerras no Iraque e no Afeganistão – com que ‘nós’ só podemos lidar se a palavra ‘nós’ tiver uma conotação coletiva”(JB 01/10/09).

    Ocorre que por falta de um contrato social mundial, os EUA comparecem como a potência dominante que, praticamente, decide os destinos da humanidade. Seu arraigado individualismo projetado para o mundo se mostra absolutamente inadequado para mostrar um rumo para o “nós” humano. Esse individualismo não tem mais futuro.

    Mais e mais se faz urgente uma governança global que substitua o unilateralismo mocêntrico. Ou deslocamos o eixo do “eu” (a minha economia, a minha força militar, o meu futuro) para o “nós” (o nosso sistema de produção, a nossa política e o nosso futuro comum) ou então dificilmente evitaremos uma tragédia, não só individual mas coletiva. Independente de sermos socialistas ou não, o social e o planetário devem orientar o destino comum da humanidade.

    Mas por que o individualismo é tão arraigado? Porque ele está fundado num dado real do processo evolucionário e antropogênico, mas assumido de forma reducionista. Os cosmólogos nos asseguram que há duas tendências em todos os seres, especialmente nos vivos: a de auto-afirmação (eu) e a de integração num todo maior (nós). Pela auto-afirmação cada ser defende sua existência, caso contrario, desaparece. Por outro lado, nunca está só, está sempre enredado numa teia de relações que o integra e lhe facilita a sobrevivência.

    As duas tendências coexistem e juntas constroem cada ser e sustentam a biodiversidade. Excluindo uma delas surgem patologias. O “eu” sem o “nós” leva ao individualismo e ao capitalismo como sua expressão econômica. O “nós” sem o “eu” desemboca no socialismo estatal e no coletivismo econômico. O equilíbrio entre o “eu” e o “nós” se encontra na democracia participativa que articula ambos os pólos. Ela acolhe o indivíduo (eu) e o vê sempre inserido na sociedade maior (nós) como cidadão.

    Hoje precisamos de uma hiperdemocracia que valorize cada ser e cada pessoa e garanta a sustentabilidade do coletivo que é a geosociedade nascente.

    Leonardo Boff é autor de Convivência, respeito e tolerância, Vozes 2008.

      Data/hora atual: Sex Nov 17, 2017 8:57 pm